terça-feira, 8 de março de 2016

O Feminismo Negro e a renovação da política do “Dia Internacional das Mulheres”

Foto: Panteras Negras 
Texto Original: Rosane Borges.
Pós-Doutoranda em Ciências da Comunicação pela ECA-USP

O “episódio” na Triangle Shirtwaist Company, em 1911, em Nova Iorque, uma tragédia que nos mobiliza até hoje (como não poderia deixar de ser diferente), representa, em tons funestos, o ápice da exploração do capitalismo às custas da opressão feminina (“no incêndio morreram 146 trabalhadores, dos quais 17 eram homens e 129 eram mulheres e meninas – 90 delas se jogaram pelas janelas do prédio. A maioria das jovens era imigrante, tinha entre 16 a 24 anos e trabalhava em condições desumanas” [Lima]); compromete-nos com a reatualização das diversas formas de exploração ao redor do mundo com fundamento de gênero. Ao fazê-lo, somos levadas, inevitavelmente, a empreender correlações com outras variáveis de exclusão, com destaque para o racismo, posto que o laço indissolúvel entre gênero e raça, qualificativo de classe social, eixo extremo de diferenciação negativa, nos dá a medida da magnitude da opressão feminina. Esse entrelaçamento nos enreda, sem dúvida, “nas histórias das que vieram antes de nós”, marcadas pelo drama da escravidão.

As opressões que se cruzam


Esse dado torna ainda mais necessário o exercício de apontamento das antecedências e dos fundamentos da exploração e da opressão por onde se divisa as reivindicações históricas das mulheres negras.  Pretende-se, antes, apontar o caráter fundante da relação inescapável entre gênero e raça no contexto brasileiro e da diáspora africana, o que forjou a assunção do feminismo negro, que põe em cheque as concepções universalistas que orientaram as políticas desenhadas para transpor as desigualdades de gênero. A esse respeito, ensina a filósofa e feminista negra Sueli Carneiro:

No Brasil e na América Latina, a violação colonial perpetrada pelos senhores brancos contra as mulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está na origem de todas as construções de nossa identidade nacional, estruturando o decantado mito da democracia racial latino-americana, que no Brasil chegou até as últimas consequências. Essa violência sexual colonial é, também, o “cimento” de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades, configurando aquilo que Ângela Gilliam define como “a grande teoria do esperma em nossa formação nacional. As mulheres negras tiveram uma experiência histórica diferenciada que o discurso clássico sobre a opressão da mulher não tem reconhecido, assim como não tem dado conta da diferença qualitativa que o efeito da opressão sofrida teve e ainda tem na identidade feminina das mulheres negras. Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas… Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados. (…). (Carneiro, 2001).

Para além da necessidade de conhecermos a história das nossas antecedências, das que vieram antes de nós, (relembremos o livro organizado pela médica e feminista negra, Jurema Werneck: O livro de saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe), o texto de Sueli Carneiro evidencia o caráter radical (no sentido etimológico do termo) dos feminismos negros na exata medida em que desde sempre se constituíram interrogando os princípios que regeram a política moderna e não apenas reivindicando participação nela. 
Bloco das Pretas: resgate da identidade da Mulher Negra.
O Bem Viver como renovação de uma agenda que se desdobra ao longo do tempo
A conquista de espaços, o ingresso do par gênero-raça na institucionalidade da vida nacional não é possível sem a implosão daqueles modelos que, per se, não comportavam as identidades e trajetórias múltiplas de grupos raciais não hegemônicos. Não foi, portanto, mero jogo de palavras a escolha do tema da Marcha das Mulheres Negras 2015: “Contra o racismo e pelo Bem-Viver (a expressão Bem Viver tem origem política nas tradições indígenas e aproxima-se de metáforas fundantes do ideal de vida plena em contraposição a propostas desenvolvimentistas). O slogan renova uma agenda em que mulheres negras de todo o Brasil marcharam em nome de um novo contrato social, um novo pacto civilizatório. Inspiradas em paradigmas que se orientam por outra gramática política, responsável por um reordenamento sociorracial equilibrado, capaz de acolher saberes, práticas e experiências até então ignorados pelas dominantes configurações do político,essas mulheres apresentaram um Projeto de/para o país. No documento expandido da Marcha, afirma-se: “A nossa trajetória nos autoriza a propor outros modos de vida. […]. Não compactuamos com modelos de desenvolvimento e conceitos que deixam para trás 49 milhões de brasileiras.” Nem hoje, nem ontem.


As reações às formas de exclusão perfazem um arco pontilhado de referências que evocamos para não perdermos as balizas políticas que dão sentido ao “8 de março”. Recordemos algumas delas: Sojourner Truth, ex-escravizada que se notabilizou por proferir discurso intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio, em 1851; Rosa Parks(que se recusou a levantar do lugar reservado para brancos em ônibus na época da segregação racial norte-americana); Maria Firmina dos Reis (ex-escravizada, primeira romancista brasileira);Antonieta de Barros (primeira deputada negra brasileira), lideranças religiosas e políticas, donas de casa que em seu ritual diário estabelecem outros modos de concepção do espaço privado (“nada é mais perturbador que os movimentos incessantes do que parece imóvel”)… mulheres que suscitam acontecimentos capazes de engendrar outras temporalidades. Se é ao “nível de cada tentativa que se avaliam a capacidade de resistência”, essas e outras referências nos mostram, junto com as operárias do final do século XIX e início do século XX, as mulheres indígenas e trabalhadoras rurais que é possível apostar num mundo melhor. Que o dia de hoje sirva para nos lembrar disso.

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